L'Imagem do Mundo

Arkan SIMAAN, Joelle FONTAINE
2003
Traduction en portugais de l'Image du monde, des Babyloniens à Newton,
paru en 1998 aux éditions Adapt-Snes, Paris, France

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   Revue de presse 4° de couverture
  Edition française originale (Adapt-Snes)   éd. Companhia dos Letros, São Paulo

Revue de presse

Scientific American (Brasil) 11-2003

Scientific American (Brasil)   

Tribuna do Norte, Natal (Rio Grande Do Norte) 09/11/03

AUTORES - No livro, os escritores Joëlle Fontaine e Arkan Simaan narram os trabalhos dos principais pensadores da humanidade.

Wagner Vasconcelos - Chefe de Reportagem

A necessidade de descobrir sobre si mesmo e o mundo à sua volta transformou o homem num exímio observador. Na Babilônia, os sacerdotes, para observar os céus, faziam uso dos zigurates, templos-observatórios em forma de torre que lhes permitiram distinguir os planetas das estrelas. No século XVII, notando a queda de uma maçã, Newton revolucionou os princípios da física.

Sempre foi fascinante contemplar o céu, mas nunca foi fácil retirar dele, sem criar polêmica, respostas para a origem e o destino do homem e do universo. Quando tentou difundir sua teoria heliocêntrica, o filósofo grego Aristarco de Samos (310 - 230 a.C.) se viu acuado - ridicularizado, até. O mesmo aconteceria com Galileu (1564 - 1642), séculos mais tarde e com tantos outros que, ao longo da história da humanidade, se dedicaram a desvendar os mistérios que ainda nos cercam.

Em "A Imagem do Mundo, dos Babilônios a Newton" (Companhia das Letras, 351 páginas), o físico Arkan Simaan e a historiadora Joëlle Fontaine descortinam parte das controvérsias que acompanharam os esforços para a obtenção de tais respostas e traçam perfis biográficos de alguns dos maiores pensadores que habitaram a superfície terrestre. O livro revela curiosidades como a criação dos calendários, a fixação de datas sagradas e as concepções sobre a forma e a extensão do universo. Explica teorias astronômicas como as das paralaxes estelares - ângulos que determinam a distância de uma estrela utilizando o raio da órbita terrestre - e comenta fatos e momentos históricos.

Nascido no Líbano, há 58 anos, Arkan Simaan veio com a família para o Brasil ainda criança. Aqui, descobriu e enveredou pelos caminhos da física na Universidade de São Paulo, mas em 1970 precisou deixar o país por razões políticas. Desde então vive na França, onde já publicou outras obras e de onde concedeu, via e-mail, a seguinte entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

TRIBUNA DO NORTE - Ciência e religião travam batalhas há séculos. É possível uma conciliação?

ARKAN SIMAAN - A ciência nem sempre foi adversária da religião. Na Babilônia, por exemplo, o sacerdote concentrava o saber filosófico, científico, religioso, político e econômico: ele observava o céu para desvendar presságios divinos, aconselhar o soberano, orientar as atividades agrícolas e explicar o mundo. Mesmo que atualmente as explicações mitológicas deles não mereçam o qualificativo de "científicas", eram, na época, a única forma de elucidar o mundo. O conhecimento científico nasceu então emaranhado com o poder religioso e político. Por isso, a mais insignificante objeção científica ou filosófica ao saber oficial era considerada como oposição ao poder, pois atingia frontalmente a ordem constituída. E era reprimida. A separação desses territórios foi longa e conflituosa, e o conhecido processo de Galileu é apenas um dos episódios. Atualmente, reina uma certa paz entre religião e ciência, com exceção do campo da bioética, onde a desavença mudou de natureza: na época de Galileu, a igreja opunha-se ao "conhecimento", hoje ela se opõe à "manipulação", condenada como intervenção humana no reino da vida. Trata-se, evidentemente, de dois conflitos essencialmente diferentes.

TN - Qual o seu entendimento sobre o big-bang, a explosão que teria criado o universo?

AS - A teoria do big-bang situa-se no limiar do conhecimento humano. Ela se apóia no fato de que o espectro das galáxias desloca-se para o vermelho, o que parece indicar que as galáxias se afastam de nós com velocidade proporcional à distância que nos separa delas. Muitos cientistas tentaram destruir esta teoria e fracassaram. Entretanto, na minha opinião, ainda há uma teoria que merece ser discutida: a do astrofísico francês Jean-Claude Pecker que contesta a maneira como as medidas de distância e de velocidades acima mencionadas foram feitas, utilizando-se o efeito Doppler. Se ele não for válido neste caso específico, diz Jean-Claude Pecker, a teoria do big-bang desmorona. E ele propõe uma alternativa, dita "teoria do fóton cansado", que é rejeitada pela maioria dos cientistas. Talvez seja bom dizer que ciência e democracia são diferentes: um homem sozinho pode ter razão contra o mundo inteiro; no século XVII, Galileu teria sido condenado por mais de 99,9999% de seus contemporâneos! Enquanto os cientistas tentam explicar a natureza, outros, como o papa Pio XII, querem apenas justificar as Escrituras: em 1951, ele assimilou o big-bang ao Fiat Lux, isto é, à criação do mundo por Deus. Não demorou muito, a Igreja acabou adotando uma posição mais prudente pois era perigoso associar o dogma da criação a uma teoria científica suscetível de ser destruída.

TN - Muitos mistérios ainda se impõem ao homem, como a existência de vida em outros planetas. Qual a sua opinião?

AS - Considerando-se as bilhões de estrelas acompanhadas de planetas que existem, pode-se afirmar que, logicamente, deve haver vida extraterrestre, mesmo se, até agora, as pesquisas tenham sido vãs: mas a ausência de prova não significa prova da ausência. A primeira dificuldade consiste em resolver o que é a vida: há animais com aspectos variados, cujos tamanhos vão do microscópico ao gigantesco, sem dizer que são possíveis cadeias diferentes da do carbono. Finalmente, o mais razoável é definir a vida por funções como alimentação, reprodução e respiração, sendo esta última a mais fácil de se procurar.

TN - Qual é o objetivo do seu livro?

AS - Este livro nasceu da constatação de que, na França, não se ensinava mais como se havia descoberto que a Terra é redonda, que ela não está no centro do mundo, mas que gira em torno do Sol. Para Joëlle e eu, tal aprendizado é fundamental. Os estudantes precisam conhecer esta história que mescla física, filosofia e religião: não só pelos aspectos culturais que ela envolve, mas também para ajudá-los a se situar no mundo. As perguntas que os adolescentes se fazem nestes tempos tão incertos, e que estão presentes neste livro, são as mesmas que os homens sempre se fizeram: por isto é interessante que eles saibam, com vocabulário simples, de que maneira os sábios, que eram homens de carne e osso, resolveram estas mesmas questões, dentro das possibilidades e mentalidades de sua época.

TN - Por que o livro não fala sobre Albert Einstein?

AS - Nosso relato começa na antigüidade e vai até Newton, no século XVII. Como não queríamos um livro muito volumoso, paramos aí com intenção de continuar em outros volumes. Em 2001, infelizmente sem a Joëlle, escrevi "La science au péril de sa vie - les aventuriers de la mesure du monde" que recebeu, na França em 2002, o "Prêmio especial do livro de astronomia". Ele conta a vida dos cientistas que saíram, no século XVIII, pelos quatro cantos do mundo, que viveram aventuras inacreditáveis, exploraram a Terra, descobriram que ela é achatada nos pólos, mediram a distancia Terra-Sol e criaram o sistema métrico decimal. Atualmente, estou trabalhando na ultima parte, onde Einstein aparece, evidentemente, como um dos protagonistas mais importantes. Entretanto, este trabalho teve que parar: Vuibert e Adapt, meus editores, me pediram, com urgência, para escrever "Vénus devant le Soleil - comprendre et observer un phénomène astronomique", livro que explica a passagem de Vênus diante do Sol, fenômeno raríssimo, que vai acontecer em 8 de junho de 2004, e que está, desde já, mobilizando os astrônomos amadores europeus.

TN - O que é esse fenômeno e qual a sua importância?

AS - Historicamente, este fenômeno é importantíssimo: ele validou as leis de Kepler, permitiu a medição da distância Terra-Sol, revelou a existência de atmosfera em Vênus, criou a cooperação científica internacional, estimulou a aparição da cronofotografia (e, por, conseguinte, do cinema), favoreceu a entrada das mulheres no campo da astronomia, etc. Astronomicamente falando, sua importância atual é irrelevante, embora, pedagogicamente, a passagem de 2004 seja fundamental: pela primeira vez, estudantes do mundo inteiro vão cooperar, vão medir juntos a distancia da Terra ao Sol, como exercício. A Europa, a África e a Ásia estão se mobilizando. Infelizmente, alguns países como o Brasil e Portugal ainda não acordaram. Com exceção do Ministério da Ciência e Tecnologia que publicou dois artigos, há pouca matéria em português.

TN - Podemos dizer que existem "verdades científicas", já que elas podem ser questionadas e até mesmo derrubadas?

AS - Em ciência não há verdades "absolutas": tudo pode ser contestado. Isto não quer dizer que devamos cair no ceticismo, nem que não precisamos aprendê-las. Mesmo temporárias, elas permitem compreender e atuar sobre o mundo.

TN - Na Antigüidade, sem nenhum recurso tecnológico semelhante ao que temos hoje, os sábios traçaram teorias que ainda são respeitadas. Sem dúvida, continuamos a vivenciar descobertas científicas importantes. Mas, devido a tudo o que temos hoje, a sensação é de que poderíamos conhecer muito mais. É mesmo só sensação ou podemos dizer que o saber estagnou? Ou desacelerou?

AS - Na minha opinião não sobrou nada. Evidentemente, devemos, primeiramente, definir "antigüidade" para evitar o erro de uma pessoa que me disse que a época da bisavó dele era "antigüidade", pois não havia eletricidade na rua. Noção cronologicamente ambígua, "antigüidade" corresponde ao período que vai do começo da história escrita até a queda de Roma. Se assim for, quais teorias daquela época "ainda são válidas" na física, na química ou na astronomia? Estas ciências mudaram completamente: nestes ramos, não resta nenhuma seqüela daquela época. Na medicina? Não conheço nenhum médico que pratique medicina como naquele tempo. É verdade que sobraram duas coisas: a geometria e também, infelizmente, a astrologia. Mas astrologia não é ciência. Quanto à geometria, ela não necessita recursos, pois resulta do espírito humano, e não da observação ou da experimentação.

TN - Uma pesquisa de cientistas americanos e franceses, anunciada há algumas semanas, parece confirmar a hipótese de o universo ser finito, tendo a forma semelhante à de uma bola de futebol. Pitágoras, Platão e Aristóteles, que há milênios já "limitavam" o universo, estariam mesmo certos?

AS - Imagino que você se refere ao artigo de Nature (9 de outubro), onde uma equipe animada por Jean-Pierre Luminet analisou as observações do satélite Willkinson Anisotropy Microwave Probe (WMAP). Estes cientistas sugeriram que o mundo poderia ter forma semelhante à do dodecaedro de Poincaré. Sendo o dodecaedro um sólido parecido com bola de futebol, a revista alemã Der Spiegel escreveu: "Será que Deus joga futebol?". Contrariamente aos jornalistas em busca de furo, os cientistas haviam sido prudentes no estudo da flutuação da radiação fóssil do universo. Sem entrar em considerações complicadas, eles se perguntavam se estas oscilações poderiam ser uma manifestação da finitude do mundo. Mas não havia - nem poderia haver - declarações categóricas, que teriam sido fatais para a reputação deles. Aliás, os próprios cientistas propuseram um teste para verificar a pertinência da tese deles: infelizmente, devem esperar o lançamento do satélite europeu Planck em 2007 para ver o que sobra da hipótese.

TN - Supondo que o universo seja mesmo finito, o que existira após seus limites?

AS - Em 2001, no livro "L'univers chiffonné" ("O universo amarrotado"), Jean-Pierre Luminet explicava que um universo "amarrotado" poderia ser finito sem transgredir as leis da nossa ciência. Entretanto, mesmo esta forma esquisita não lhe permitirá elidir a terrível questão formulada contra o mundo finito, no século V antes de nossa era, por Archytas de Tarento, contemporâneo de Platão: "O que haverá além da fronteira do universo?". Embaraçado, Aristóteles respondia que esta pergunta não tinha sentido: além dos limites do mundo, dizia ele, não havia nem vazio, nem matéria, nem espaço, nem tempo. Esta réplica assemelha-se bastante às dos nossos atuais cosmologistas quando tratam do instante do big-bang ou, pior ainda, do que havia antes dele. Atualmente, a ciência não sabe dizer com certeza qual é a forma ou a idade do universo, embora eu acredite que ele é infinito e que sempre existiu. Uma única certeza: esta questão vai desafiar ainda muito tempo a filosofia, provavelmente para sempre.

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